Uma das imagens que guardei de minha infância foi a de uma borboleta que certo dia caiu no quintal de minha casa. Lembro-me de suas cores – amarelo, laranja e preto – e de que perguntei a minha mãe como ela podia ser tão bonita e colorida assim! Devia Ter uns seis anos na época, e hoje, quase 30 anos depois, já consigo formular algumas respostas usando informações científicas que falam de seleção natural, evolução, uso das cores como defesa contra predadores, mimetismo, etc. Porém, a mesma pergunta permanece em minha mente – como elas podem ser tão bonitas e coloridas assim?
Quando era adolescente, às segundas-feiras, no colégio onde estudava, meus colegas se reuniam contando as aventuras vividas no fim-de-semana, sempre relacionadas a discotecas, shows, videogames e garotas. Por outro lado, eu relatava fatos como um encontro mágico com uma borboleta-coruja que me rodeara por três vezes, mostrando flashes de seu azul até pousar estática num tronco, e revelar o desenho perfeito de olho em sua asa. E pensava: - Que artista desenha olhos tão perfeitos assim?
O convívio com a natureza nessa época acabou sendo fundamental para minha futura carreira. Apenas relatar para minha família e amigos o que eu havia visto não era suficiente. Senti necessidade de registrar esses momentos, e para isso encontrei a fotografia. Ela foi o melhor meio de me expressar, uma vez que não tinha um grande dom para o desenho, nem para a oratória, nem para a escrita. Acredito que tenha havido também uma influência hereditária de meu avô Ulysses, que também tinha grande queda para a fotografia.
Para mim, o grande trunfo da fotografia era o da partilha. Poder estar perto das coisas belas da natureza era muito bom, mas melhor ainda, era poder compartilhar o que eu via com as outras pessoas. Obviamente que esse lado romântico caminhou junto com um profundo e longo esforço pessoal de aprendizagem de técnica e estética.
Completei o curso superior de Arquitetura e freqüentei por menos de um ano o de Publicidade e Propaganda. O interessante é que durante os cinco anos de faculdade, raramente abri uma revista de Arquitetura, enquanto devorava as de fotografia, sendo ainda um assíduo freqüentador da biblioteca da Faculdade de Zoologia.
O convívio com a natureza graças à profissão de fotógrafo é algo bastante recompensador, apesar de que fotografar é bem diferente de passear. A fotografia exige alta concentração e dedicação, sacrifícios físicos ao se carregar pesados equipamentos em longas caminhadas, suportar calor, frio, umidade, picadas de insetos, rastejar na terra e viver momentos de tensão em poucos minutos ou até segundos que se tem para registrar uma cena pela qual se esperou por horas ou dias, além do dinheiro investido para se estar lá.
A maior recompensa desse contato com a natureza é poder ter uma maior proximidade de Deus, pois ela é a fonte palpável de Seu maravilhoso poder criador. Além disso, ao longo desses anos, vivi alguns episódios que me mostraram claramente a Sua presença. Um deles foi em Brejo da Cruz, na Paraíba, uma região muito seca e pobre. O transporte coletivo é escasso, sendo muito comum as pessoas pedirem carona ao longo das estradas. Fiquei um pouco receoso em transportar alguém que não conhecia numa região também estranha, mas ao avistar uma freira que pedia carona, parei, pois confiei em sua figura. Levei-a a uma fazenda onde ela ia ajudar uma criança que estava bastante doente. Ela me pediu que a deixasse na estrada, à entrada da propriedade, mas como havia ainda uns 2 km até a sede, fiz questão de levá-la. Neste caminho visualizei uma formação rochosa muito bonita, coberta com cactos xiquexique, compondo uma bela imagem da caatinga nordestina. Após deixá-la, parei para fotografar a cena, a qual resultou numa bela foto, que já foi publicada várias vezes. Tomei esse fato como um exemplo de que uma boa ação pode ter uma recompensa imediata.
Outro episódio aconteceu na Praia do Cassino, no Rio Grande do Sul. Existe uma estrutura enferrujada de um navio que encalhou naquela praia, e hoje é um ponto turístico, devido à imagem poética que ele proporciona. Só que esse navio está a 18 km da cidade, sendo esse trecho percorrido pela praia, cruzando vários arroios que deságuam no mar. No momento em que iniciei esse percurso a maré estava alta, o que me fez aproximar demais de um atoleiro. O carro caiu numa areia extremamente úmida e fofa, afundando até o motor. O sol já estava se pondo e a praia completamente deserta, por ser um dia de semana de inverno. Vendo a situação difícil em que me encontrava, pedi fervorosamente que Deus mandasse alguém em meu auxílio. Após uns 20 minutos ele mandou, não um, mas doze pescadores (qualquer semelhança com os doze apóstolos pode ser mera coincidência). A situação em que o carro se encontrava era tal, que doze homens empurrando e um caminhão puxando tiveram bastante dificuldade em retirá-lo da areia.
Deus também já me encaminhou para grandes fotos. Certa vez, no Pantanal, rodando à procura de animais, encontrei um morador local e parei para conversar um pouco. Ele me disse que acabara de ver uma sucuri ao lado de uma casa nas proximidades. Dirigi-me até lá, mas ao invés de conseguir boas fotos de sucuri, que era pequena (aproximadamente 2m), eu consegui fotos sensacionais de pequenos pássaros que começaram a rodear a serpente, numa atitude de ataque. Eram diversas espécies como bem-te-vis, pássaros-pretos, cardeais, anus, que chegavam em grupos, na ânsia de afugentar aquele ser que representava perigo para eles e seus ninhos, não se importando com a minha presença. Posicionei-me atrás da cobra, e enquanto acompanhava seus movimentos, registrava as aves a uma distância dificilmente atingível. Era um final de tarde e a luz estava perfeita. Ao término do trabalho em intensos e preciosos minutos, senti uma grande alegria e agradeci a Deus pela oportunidade.
Além dessas, várias outras experiências já aconteceram, tanto em minha vida profissional com pessoal. Sei que Ele está sempre presente, me ajudando nas fotos ou me livrando de problemas, até mesmo quando nem estou pensando nele. Não existe satisfação maior do que reconhecer essa presença na nossa vida e na natureza. E a propósito, Ele é o artista que desenha olhos nas asas das borboletas.
Acredito que a pergunta mais freqüente que um fotógrafo costuma ouvir é: “- Qual equipamento você usa?”. Isso me indica que, para a maioria das pessoas, o equipamento é o item mais importante para a obtenção de uma boa foto. Segundo esse mesmo raciocínio, poderíamos perguntar a um pianista qual a marca de seu piano, ou a um escritor qual a caneta que ele usa. Do ponto de vista de curiosidades são perguntas aceitáveis, porém não vão ao cerne da obra artística. Com relação às máquinas fotográficas, eu respondo “Pentax”, mas não faria diferença dizer Canon, Nikon, Hasselblad, Olympus...
O que faz realmente uma grande foto é quem está por trás da máquina. É claro que o equipamento também é importante. O pianista não conseguiria demonstrar todo o seu talento num piano desafinado. O escritor perderia a concentração caso sua caneta falhasse. Da mesma forma, o fotógrafo precisa de um equipamento confiável, de precisão, de qualidade ótica. Não é necessário que o modelo seja top de linha da marca mais famosa, nem a máquina com as maiores velocidades e mais funções, nem a lente com a maior abertura.
Sugiro que o equipamento evolua junto com o fotógrafo. Com o tempo e a experiência descobrem-se as necessidades reais para cada tipo de foto. Pode-se sentir a necessidade de um motor-drive para concentrar-se mais na foto, de uma trava de espelho para evitar tremores, de uma lente de distância focal fixa ao invés de um zoom, de uma lente macro ao invés de lentes de aproximação.
Quando eu comecei a fotografar tinha uma Flexaret, máquina de duas objetivas, semelhante a Roleiflex, modelos muito usados em fotos de casamentos. O problema é que eu queria realizar macro-fotografia com ela. Para tal fazia um verdadeiro malabarismo, adaptando lentes de um kit para montar aparelhos óticos, prevendo o foco e compensando o erro de paralaxe com uma régua, e calculando a exposição sem fotômetro, tudo isso para fotografar um vaga-lume aceso à noite. O resultado? Ótimo para aquele momento, ruim para hoje, mas fundamental para meu crescimento.
Assim como ficamos cada vez mais hábeis para lidar com máquinas, lentes e diafragmas, nosso olhar também vai evoluindo, alterando a percepção sobre o nosso próprio trabalho. Considerava minhas primeiras fotos muito boas, porém com o passar dos anos elas foram parecendo cada vez piores. Na mesma proporção, as fotos dos grandes profissionais foram parecendo cada vez melhores. Isso porque desde o começo sempre busquei inspiração nas obras dos melhores fotógrafos brasileiros e principalmente estrangeiros. E ainda hoje busco, mas com a grata satisfação de saber que meu trabalho tem servido de inspiração para muitos que estão começando agora. De grandes fotos, assim como de grandes pinturas, sempre se tira uma lição. Mesmo que não as entendamos, somos sensibilizados e marcados por elas. Quanto mais evoluirmos visualmente, mais poderemos entendê-las e saber usar esse entendimento na nossa própria obra, mas de maneira original e pessoal.
Portanto, o mais importante não é o equipamento, mas como eu vejo através dele. O bom fotógrafo consegue ver o mundo de uma forma única. Sua mente é atenta, detalhista, criativa, busca a beleza e o equilíbrio.
É comum se ouvir de grandes fotógrafos de animais que a preocupação com as técnicas fotográficas são, por eles, cada vez mais relegadas a um segundo plano, enquanto que a prioridade fica com o entendimento da natureza. Ou seja, todo fotógrafo deve ser uma espécie de biólogo. Será decisivo para o sucesso de um trabalho, saber qual o ambiente preferido de determinado animal, a que horas está mais ativo, o que come, se tem bom olfato ou boa visão, o que o atrai, o que o assusta. Deve-se saber também como distingui-lo do seu ambiente, uma vez que quase todos os animais estão camuflados, disfarçados, escondidos na natureza. Todo tufo de mato pode se parecer com um tamanduá, e toda folha se parece com uma esperança. O tempo e a prática ajudarão no treino do olhar, assim como o do ouvido, muito útil também para perceber e identificar as espécies.
Mesmo com todos os conhecimentos biológicos adquiridos, será difícil encontrar os animais em situação ideal para a fotografia. Isso irá requerer tempo, perseverança e PACIÊNCIA, além de bastante tolerância para os insucessos. Ao se esperar, por exemplo, por várias horas um tucano voltar ao seu ninho, alguns questionamentos vão surgindo, como: – Será que o tucano vai realmente voltar? Será que os pernilongos não vão embora? Será que essa foto é tão importante assim? Será que não é melhor voltar e trocar esses sapatos molhados e tirar esses carrapatos do meu corpo? Caso o fotógrafo tenha resistido a esses desconfortos e conseguido a foto, ainda restará o comentário dos amigos sobre a vida boa que é estar na natureza, fotografando animais.
Porém, se o tucano do exemplo anterior não voltar ao ninho, será que a presença do fotógrafo não o está perturbando? Entra aqui a ética da fotografia de animais, que consiste em saber respeitar os limites que podem por em risco a vida deles ou até a sua. Aves podem simplesmente abandonar seus ninhos e filhotes se forem ameaçadas. E qualquer animal pode ser perigoso se perseguido e acuado. Deve-se ter em mente de que quase todos os animais têm medo do homem, afinal têm sido caçados por gerações e gerações. Somente os que viveram isolados por muito tempo, como na Antártida e em ilhas oceânicas, são tolerantes à nossa presença. Eles ainda não conheceram o potencial destrutivo do ser humano.
Para ajudar na realização e avaliação de uma grande imagem de animal, considero que ela deve reunir os seguintes itens:
Lembre-se de que uma boa foto não precisa de explicações ou desculpas, e de que nem sempre a foto mais difícil de obter é a melhor. Enfim, a imagem deve emocionar, arrancar frases como: - Que luz! Que sorte! Como você conseguiu essa cena!? Aonde você encontra esses bichos!?
E até: - Que bela foto! Qual equipamento você usa?
Texto publicado na revista Photo & Câmera Explorer Magazine, fev/2000.